A poesia que sobreviveu ao tempo, ao esquecimento
e ao silêncio imposto sobre o Nordeste.
Quem criou o alfabeto foram os analfabetos.
Muito se fala sobre o analfabetismo nordestino. Mas ser letrado é apenas um protocolo formal.
Ninguém nasce escrevendo. Todo mundo nasce falando.
A oralidade vem antes da escrita. Para a escrita existir, precisa antes existir a fala. Na escala de importância, a oralidade está em primeiro lugar.
Este projeto existe para provar isso.
"O que permanece de uma cultura quando o mundo decide que ela não vale nada?"
"Quem não sabe de onde veio, dificilmente saberá para onde vai."
Existe uma palavra que acompanha a cultura nordestina há muito tempo: resistência. Ela aparece em discursos, livros, músicas e reportagens. Resistimos à seca. Resistimos às dificuldades. Resistimos ao preconceito. Resistimos ao esquecimento.
Mas talvez o nosso maior desejo seja que um dia essa palavra deixe de ser necessária. Que a cultura nordestina não precise mais ser defendida para existir. Que um poeta não precise provar seu valor antes de ser ouvido.
Que um menino da Paraíba conheça Pinto do Monteiro com a mesma naturalidade com que conhece Shakespeare. Que uma menina de Pernambuco reconheça Patativa do Assaré antes que alguém lhe diga que a grande literatura sempre veio de longe.
Não acreditamos que um documentário possa mudar o mundo. Mas acreditamos que a cultura muda pessoas. E pessoas mudam o mundo.
Toda transformação começa quando alguém descobre quem é.
Não queremos ensinar o Nordeste ao restante do Brasil. Antes disso, queremos reapresentá-lo aos próprios nordestinos. Porque admirar artistas de outros países nunca foi o problema. O problema começa quando deixamos de conhecer aqueles que nasceram ao nosso lado.
Este projeto existe para registrar vozes que ainda estão entre nós. Para preservar saberes transmitidos pela oralidade. Para lembrar que existe uma riqueza imensa onde muitas vezes só enxergam carência.
Não queremos construir nostalgia. Queremos construir continuidade.
Se no futuro este documentário deixar de ser necessário porque nossa poesia passou a ocupar naturalmente o lugar que merece, teremos alcançado exatamente o objetivo para o qual ele foi criado.
Porque nenhuma cultura deveria precisar resistir para continuar existindo. Ela deveria apenas existir. E ser reconhecida por aquilo que sempre foi: um patrimônio vivo.
Nós somos nordestinos. Somos cantadores, repentistas, cordelistas, pesquisadores e documentaristas.
Somos os que amam o que tem. E ponto final.
Senhores críticos, basta
Deixai-me passar sem pejo
Que um trovador sertanejo
Vem seu pinho dedilhar
Eu sou da terra onde as almas
São todas de cantadores
Sou do Pajeú das Flores
Tenho razão de cantar
Não sou um Manuel Bandeira
Drummond, nem Jorge de Lima
Não espereis obra prima
Deste matuto plebeu
Eles cantam suas praias
Palácios de porcelana
Eu canto a roça, a choupana
Canto o sertão, que ele é meu.
Não pode nunca imaginar
O som que brota
Da cantiga de uma grota
Quando chuva cai por lá
O cheiro verde
Da folha do marmeleiro
E o amanhecer catingueiro
No bico do sabiá.
Meu verso é feito a cigarra
Num velho tronco a sonhar
Que canta uma tarde inteira
E só para quando estourar
Que eu troco tudo na vida
Pelo prazer de cantar.
Zefa Tereza me ensinou
Que prum caboclo
Entrar na roda de côco
Tem que saber rebolar
Soltar um verso na roda
Que se balança
E no movimento da dança
Fazer o côco rodar.
Antônio Marinho
recita Rogaciano Leite
Este não é um documentário sobre cordel. Também não é sobre repente, nem sobre um poeta específico. É sobre o fenômeno vivo de uma tradição que sobreviveu ao tempo.
O filme percorre o Nordeste registrando repentistas, cantadores, cordelistas, declamadores, pesquisadores, professores, mestres da cultura, jovens poetas e novas gerações que recebem esse legado e o transformam.
A poesia nordestina nunca pediu permissão para existir. Este documentário vai atrás dessas vozes.
A poesia nordestina nasceu da necessidade de contar o que não estava escrito. O repente, o cordel, a cantoria e a declamação construíram uma das maiores tradições orais do mundo, totalmente viva e em constante transformação.
A poesia nordestina sempre foi contemporânea sem precisar ser moderna. Hoje convive com o slam, com o rap, com as redes sociais, e mantém sua força exatamente porque sabe de onde vem. A cadeia é ininterrupta.
De nada em nada, tudo. não é uma homenagem póstuma. É um encontro com poetas vivos, que hoje carregam e reinventam essa tradição. Um registro permanente do que está acontecendo agora.
Clique em cada tipo para ver a descrição, a métrica e um exemplo.
Poeta, cantô da rua,
Que na cidade nasceu,
Cante a cidade que é sua,
Que eu canto o sertão que é meu.
Você teve inducação,
Aprendeu munta ciença,
Mas das coisa do sertão
Não tem boa esperiença.
Nunca fez uma paioça,
Nunca trabaiou na roça,
Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,
Só quem provou da comida
Sabe o gosto que ela tem.
Amigo, não tenha quêxa,
Veja que eu tenho razão
Em lhe dize que não mexa
Nas coisa do meu sertão.
Pois, se não sabe o colega
De quá manêra se pega
Num ferro pra trabaiá,
Por favô, não mexa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá que eu canto cá.
Mas porém, eu não invejo
O grande tesôro seu,
Os livro do seu colejo,
Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poeta
E fazê rima compreta,
Não precisa professô;
Basta vê no mês de maio,
Um poema em cada gaio
E um verso em cada fulô.
Eu não posso lhe inveja
Nem você invejá eu
O que Deus lhe deu por lá,
Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,
Me estima com munta fé,
Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negá
Que das coisa naturá
Tem ela o que a sua tem.
Aqui findo esta verdade,
Toda cheia de razão:
Fique na sua cidade
Que eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,
Já lhe dei grande conseio
Que você deve toma.
Por favô, não mêxa aqui,
Que eu também não mexo aí,
Cante lá
Que eu canto cá.
Clique em qualquer folheto para ler.
O maior canal de conversa sobre o Nordeste na internet vai exibir o documentário na íntegra, seguido de debate ao vivo com poetas convidados. Não é patrocínio. É um palco com audiência real.
Captação ativa. Assim o projeto chegará ao Nordeste e ao mundo:
Aprovado pelo Ministério da Cultura. Captação de recursos ativa.
Captação via Lei Rouanet (PRONAC 258413). Empresas com IR a pagar podem patrocinar sem custo real. Patrocinadores recebem visibilidade e relatórios de impacto.
O projeto está aprovado pela Lei Rouanet. Por meio dela, empresas podem destinar parte do imposto de renda para financiar projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura.
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Quero apoiar Retorno ao patrocinadorProdutora audiovisual fundada em 2016, sediada em Campina Grande, PB. Trabalhamos no segmento de documentário, vídeo institucional, comunicação política e cultura. Este projeto nasce da convicção de que o audiovisual tem responsabilidade com o território em que existe.
Com dois projetos aprovados pela Lei Rouanet, a Bourbon Films aposta na produção de documentários e filmes institucionais de grande formato. De nada em nada, tudo. é o nosso compromisso mais profundo com a cultura do Nordeste.