Quadra
4 versosA forma do repente antigo: rimas cruzadas ABAB ou interpoladas ABBA.
A poesia que sobreviveu ao tempo, ao esquecimento e ao silêncio imposto sobre o Nordeste.
Muito se fala sobre o analfabetismo nordestino. Mas ser letrado é apenas um protocolo formal.
Ninguém nasce escrevendo. Todo mundo nasce falando.
Para a escrita existir, precisa antes existir a fala. Na escala de importância, a oralidade está em primeiro lugar. Este projeto existe para provar isso.
“Quem não sabe de onde veio, dificilmente saberá para onde vai.”
Existe uma palavra que acompanha a cultura nordestina há muito tempo: resistência. O nosso maior desejo é que um dia ela deixe de ser necessária.
Não acreditamos que um documentário possa mudar o mundo. Mas acreditamos que a cultura muda pessoas. E pessoas mudam o mundo.
Queremos reapresentar o Nordeste aos próprios nordestinos. Registrar vozes que ainda estão entre nós. Preservar saberes transmitidos pela oralidade. Lembrar que existe uma riqueza imensa onde muitas vezes só enxergam carência.
Não queremos construir nostalgia. Queremos construir continuidade.
Nós somos nordestinos. Somos os que amam o que tem.
Rogaciano Leite, poeta de Itapetim, no Pajeú pernambucano (1920 a 1969).
Recitação e adaptação: Antônio Marinho.
Senhores críticos, bastaDeixai-me passar sem pejoQue um trovador sertanejoVem seu pinho dedilharEu sou da terra onde as almasSão todas de cantadoresSou do Pajeú das FloresTenho razão de cantar
Não sou um Manuel BandeiraDrummond, nem Jorge de LimaNão espereis obra primaDeste matuto plebeuEles cantam suas praiasPalácios de porcelanaEu canto a roça, a choupanaCanto o sertão, que ele é meu.
Não pode nunca imaginarO som que brotaDa cantiga de uma grotaQuando chuva cai por láO cheiro verdeDa folha do marmeleiroE o amanhecer catingueiroNo bico do sabiá.
Meu verso é feito a cigarraNum velho tronco a sonharQue canta uma tarde inteiraE só para quando estourarQue eu troco tudo na vidaPelo prazer de cantar.
Zefa Tereza me ensinouQue prum cabocloEntrar na roda de côcoTem que saber rebolarSoltar um verso na rodaQue se balançaE no movimento da dançaFazer o côco rodar.
Na cantoria e no cordel, a forma é o que permite improvisar, decorar e passar adiante. Veja num trecho de Patativa do Assaré.
Toque em Rimas ou Sílabas para ver como o verso é construído.
A forma do repente antigo: rimas cruzadas ABAB ou interpoladas ABBA.
A mais usada no cordel. Rimam o segundo, o quarto e o sexto versos; os outros ficam livres.
Rimam o 2º, o 4º e o 7º versos; o 5º rima com o 6º.
Esquema ABBAACCDDC. É a estrofe do mote e glosa e de muitas pelejas.
O mesmo desenho da décima, mas com versos decassílabos. Ritmo de galope, marcado e rápido.
Versos longos, de onze sílabas. A estrofe fecha com um refrão que termina na palavra mar.
O 1º, o 2º e o 3º versos rimam entre si; o 4º com o 8º; o 5º, o 6º e o 7º entre si.
Não é uma estrofe de um só poeta: o primeiro cantador faz os versos 1, 2, 5, 6 e 7; o segundo, os versos 3 e 4.
A plateia propõe o mote. O cantador improvisa décimas que obrigatoriamente terminam nele.
Uma folha de papel.
Barata, comum, quase nada. É assim que começa.Dobrada, vira folheto.
Capa em xilogravura, versos dentro, o nome do poeta embaixo.Pendurada num cordão, vira cordel.
Nas feiras, os folhetos ficavam expostos em cordões. Daí o nome. De nada em nada, a folha virou literatura.Poeta, cantô da rua,Que na cidade nasceu,Cante a cidade que é sua,Que eu canto o sertão que é meu.
Você teve inducação,Aprendeu munta ciença,Mas das coisa do sertãoNão tem boa esperiença.
Nunca fez uma paioça,Nunca trabaiou na roça,Não pode conhecê bem,
Pois nesta penosa vida,Só quem provou da comidaSabe o gosto que ela tem.
Amigo, não tenha quêxa,Veja que eu tenho razãoEm lhe dize que não mexaNas coisa do meu sertão.
Pois, se não sabe o colegaDe quá manêra se pegaNum ferro pra trabaiá,
Por favô, não mexa aqui,Que eu também não mexo aí,Cante lá que eu canto cá.
Mas porém, eu não invejoO grande tesôro seu,Os livro do seu colejo,Onde você aprendeu.
Pra gente aqui sê poetaE fazê rima compreta,Não precisa professô;
Basta vê no mês de maio,Um poema em cada gaioE um verso em cada fulô.
Eu não posso lhe invejaNem você invejá euO que Deus lhe deu por lá,Aqui Deus também me deu.
Pois minha boa muié,Me estima com munta fé,Me abraça, beja e qué bem
E ninguém pode negáQue das coisa naturáTem ela o que a sua tem.
Aqui findo esta verdade,Toda cheia de razão:Fique na sua cidadeQue eu fico no meu sertão.
Já lhe mostrei um ispeio,Já lhe dei grande conseioQue você deve toma.
Por favô, não mêxa aqui,Que eu também não mexo aí,Cante láQue eu canto cá.
Recorte intencional, não segue a sequência original.
Reprodução para fins culturais.
Clássicos de Leandro Gomes de Barros, Patativa do Assaré, Rodolfo Coelho Cavalcante e outros. Toque num folheto para ler um trecho.
Os trechos marcados como provisórios ainda serão conferidos com as edições originais antes de qualquer uso público definitivo. Reprodução para fins culturais e educativos.
Patativa do Assaré, 1978
Poeta, cantô da rua,Que na cidade nasceu,Cante a cidade que é sua,Que eu canto o sertão que é meu.
Por favô, não mexa aqui,Que eu também não mexo aí,Cante lá que eu canto cá.
Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002). In: Cante lá que eu canto cá, Ed. Vozes, 1978.
José Pacheco, c.1905
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Quando Lampião chegouNo portão do infernoO diabo avistou de longeE ficou com medo eterno.
Ele disse: Fecha a porta,Segura esse cangaceiro,Que o sertão já tá vazioE o céu não quis esse guerreiro.
José Pacheco da Rocha (1865-1949). Um dos cordéis mais reproduzidos da história.
João Melchíades Ferreira, c.1920
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Era uma jovem formosaFilha dum conde europeuQue vivia prisioneiraNo castelo que o pai lhe deu.
O pavão sobrevoouSete vezes o casteloE no sétimo retornoLevou a moça mais bela.
João Melchíades Ferreira da Silva (1869-1933), cantador e cordelista paraibano.
Manoel Camilo dos Santos, 1956
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Eu fui um dia passearNo país de São SaruêOnde tudo é como sonhoNada há de nada que se pê.
Tem rio de mel de abelhaBarranco de rapaduraE pedras de paçocaNo chão de farinha pura.
Manoel Camilo dos Santos (1905-1987), cordelista paraibano. Considerado um clássico da utopia popular.
Patativa do Assaré, c.1950
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Setembro e outubro, meu DeusQue pena, que dóO caboclo nordestinoTá sofrendo de todo jeito e modo.
Seus fio rezando, chorandoA mulher gemendo, chorandoPedindo a Deus que mande chuvaPra encher os lagão.
Antônio Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré (1909-2002). Musicada por Luiz Gonzaga.
Leandro Gomes de Barros, c.1904
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Antônio Silvino foiO maior dos cangaceirosQue jamais andou no NordesteEntre valentes e guerreiros.
Nasceu em PernambucoDe família pobre e simplesMas o destino quisQue fosse o rei dos sertanejos.
Leandro Gomes de Barros (1865-1918), pioneiro do cordel nordestino.
Leandro Gomes de Barros, c.1900
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Era filha de um mercadorA mais sábia entre as mulheresQue enfrentou os maiores sábiosE nenhum pôde atingi-la.
Ela sabia de tudoMedicina e os segredosFilosofia e as leisQue rege os mais altos credos.
Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Adaptação de tema medieval português.
Leandro Gomes de Barros, c.1906
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Riachão era famosoNo sertão de todo o NordesteQuando apareceu um estranhoQue disse ser o mais forte.
O diabo se transformouNum caboclo bem vestidoE desafiou o cantadorNo pátio bem conhecido.
Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Um dos textos fundadores do imaginário popular nordestino.
Patativa do Assaré, c.1955
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
A de agonia do povoB de batalha perdidaC de cangaço e secaD de dor nessa vida.
S de sertão sofredorE de esperança guardadaR de resistir sempreT de terra ressecada.
Antônio Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré (1909-2002). Poema no formato ABC, um dos mais conhecidos.
Leandro Gomes de Barros, c.1906
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
No sertão da ParaíbaExistia um grande dragãoQue assustava o povo todoCom seu fogo e maldição.
Juvenal, jovem valenteResolveu enfrentar a feraCom sua espada e coragemSaiu da mata inteira.
Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Clássico do cordel de temática heroica.
Patativa do Assaré, c.1960
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Eu sou um pobre retiranteQue deixou meu lugarDe minha terra queridaFui me embora trabalhar.
Saudade do meu sertãoDa minha terra bonitaDo som do meu candeeiroE da minha bênção bendita.
Antônio Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré (1909-2002).
Leandro Gomes de Barros, c.1900
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
O dinheiro é o rei do mundoO dinheiro é o generalO dinheiro é o ministroÉ o padrão universal.
Com dinheiro até o feioFica bonito e vistosoE sem dinheiro o bonitoVira feio e vergonhoso.
Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Uma das mais populares sátiras sociais do cordel.
José Francisco Borges, 1969
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Em mil novecentosE sessenta e noveO homem americanoPisou na lua e pode.
O mundo todo tremeuDe espanto e admiraçãoE o nordestino perguntou:Levou letra de cordão?
José Francisco Borges, J. Borges (1935), xilógrafo e cordelista pernambucano.
Leandro Gomes de Barros, c.1902
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Nas terras do NordesteExiste uma lenda antigaDe um cachorro misteriosoQue assombra quem se aproxima.
Ele late na encruzilhadaÀs doze horas da noiteE quem o ouve chorarSente um frio e se acoite.
Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Cordel de temática fantástica popular.
Firmino Teixeira do Amaral, c.1906
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
O cego Aderaldo chegouNa feira do Sobral um diaE encontrou Zé PretinhoQue desafiou sua valia.
Dois cegos se enfrentaramCom viola na mãoE a multidão ficouEncantada com a situação.
Firmino Teixeira do Amaral (1861-1930). Uma das pelejas mais célebres da literatura de cordel.
Patativa do Assaré, c.1955
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Vou cantar o Boi BarrosoMeu boi de estimaçãoQue morreu no tempo da secaCom fome e com privação.
Era forte, era bonitoEra a orgulho do sertãoE hoje jaz no cemitérioDa minha solidão.
Antônio Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré (1909-2002).
Rodolfo Coelho Cavalcante, c.1932
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Quando a seca chega forteNo sertão nordestinoO povo sofre caladoÉ um sofrimento divino.
O gado morre de sedeA terra racha e gemeO retirante choraE o coração estreme.
Rodolfo Coelho Cavalcante (1919-1986), prolífico cordelista baiano.
Rodolfo Coelho Cavalcante, c.1940
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Virgulino FerreiraNasceu em PernambucoDe família humilde e pobreE teve um destino mucho.
Ficou famoso no sertãoCom sua cangaceiradaEnfrentando os poderososCom bala e facão na estrada.
Rodolfo Coelho Cavalcante (1919-1986). Uma das versões mais populares sobre o cangaceiro.
Leandro Gomes de Barros, c.1908
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
Era uma pobre viúvaQue morava no sertãoE tinha um filho chamadoRomano, sua bênção.
Romano cresceu valenteE foi defender a mãeDas injustiças do ricoQue quis tomar o que é de ninguém.
Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Tema recorrente da justiça popular no cordel.
Leandro Gomes de Barros, c.1903
Trecho provisório: ainda não conferido com a edição original. Pode não corresponder ao texto do autor.
O pobre nasce sofrendoCresce trabalhando muitoE quando fica velhinhoÉ jogado ao olvido.
O rico nasce cantandoÉ tratado com carinhoE quando morre é lembradoComo um rei em seu ninho.
Leandro Gomes de Barros (1865-1918). Crítica social que ecoa até hoje.
Mestres que fundaram a tradição e poetas que a levam adiante.
Também não é sobre repente, nem sobre um poeta específico. É sobre o fenômeno vivo de uma tradição que sobreviveu ao tempo. A poesia nordestina nunca pediu permissão para existir.
O filme percorre o Nordeste registrando:
Repente, cordel, cantoria e declamação nasceram da necessidade de contar o que não estava escrito.
Convive com o slam, com o rap e com as redes sociais, e mantém a força porque sabe de onde vem.
É um encontro com poetas vivos que hoje carregam e reinventam a tradição.
Filme documental para festivais e circuito cultural nacional.
Em captaçãoEpisódios documentais para plataformas digitais. Histórias reais de poetas do Nordeste.
Em captaçãoConversas longas com poetas e guardiões da tradição oral nordestina.
Em captaçãoFotografia, reportagem e formas poéticas. Distribuição gratuita.
Em captaçãoEste site. Acervo vivo e gratuito sobre a poesia nordestina.
Ativoparceria estratégica
O lançamento do documentário está previsto com uma transmissão especial no Podcast Nordestino, canal de conversa sobre o Nordeste, com debate ao vivo com poetas convidados.
O projeto está aprovado pela Lei Rouanet. Por meio dela, empresas podem destinar parte do imposto de renda para financiar projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura.
Sem desembolso de recursos próprios. O patrocinador usa uma renúncia fiscal que já seria paga ao governo e a converte em visibilidade de marca e impacto cultural mensurável.
Ao apoiar “De nada em nada, tudo.”, sua empresa financia um registro histórico permanente e associa a marca a um projeto de credibilidade e alcance nacional.
PRONAC 258413
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Sem frequência fixa: escrevemos quando houver o que contar. Uma única lista, para o filme e para a poesia.
O que permanece de uma cultura quando o mundo decide que ela não vale nada?
Produção
Produtora audiovisual de Campina Grande, na Paraíba. Documentário, vídeo institucional e comunicação cultural.
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